sexta-feira, 5 de março de 2010

You're the direction I follow to get home.

Era uma tarde de domingo e o sol ardia no céu, e, mesmo o calor sendo quase que insuportável, o parque estava barulhento e cheio de crianças correndo de um lado ao outro, com seus pais atrás, histéricos e cansados.

Emily estava no gira-gira, sozinha, como de costume. Seu rosto sempre aparentava tristeza, e, apesar de ter um sorriso incrivelmente bonito, o usava raramente. Seu cabelo era de cor castanho-claro com cachinhos soltos na ponta, e sua pele costumava ser alva, apesar de agora estar bronzeada pelo excesso de sol que havia tomado. Seus olhinhos, cor de mel, eram intensos e chamava a atenção de qualquer um, mesmo ainda sendo tão nova. Eram expressivos. Ela acabara de completar seus 7 anos e estava na segunda série do ensino fundamental - o que atrapalhava ainda mais na sua comunicação, já que todos eram mais velhos que ela, e apenas zombavam-na - e não possuía muitos amigos, era tímida.

Ela nunca se desgrudava de sua boneca, Molly, única lembrança que tinha de sua falecida avó. O cheiro de flor do campo ainda era presente na roupinha da boneca que não tinha sido lavado uma única vez, e, mesmo que parecesse absurdo, não era necessário. A boneca estava impecável, Emy tinha um grande xodó com aquilo, era sua melhor amiga, confidente de seus segredos. Além disso, tinha o seu gatinho, o Teddy. De fato os gatos eram os únicos bichos que Emy suportava, já que tinha um grande pânico com os outros. E Teddy foi um presente de seu pai, talvez o mais sincero que já tenha vindo dele, pelo menos ao ver da pequena.

Tinha um diário, no qual relatava tudo sobre os seus dias, e, o mais triste de tudo, era ler nele depois sempre as mesmas coisas. Os domingos eram seu único dia de folga, onde freqüentava a pracinha próxima a sua casa e admirava a facilidade com a qual as outras crianças brincavam. Apesar disso, sua inteligência ia além daquilo. Ela queria algo mais intenso, uma amizade de verdade.


Capítulo Um
Emily Kuhn

Senti uma gota de suor descer pela minha testa e cair sobre meus olhos, seguindo por todo o meu rosto. As borboletas começaram a agitar na boca do meu estômago, a sensação era insuportável e me fez grunhir baixo, e de repente tudo estava ficando em câmera lenta, minha visão ficou turva e meu corpo pesou como se a força da gravidade se tornasse maior e me puxasse diretamente para o chão. O barulho alto que antes me atormentava parecia sussurros agora, e meus olhos fecharam-se. Eu caí.

- Eiiii! Menina, acorde. Acorde! – uma vozinha doce invadiu meus pensamentos quando imaginei estar sozinha, e, a mesma pessoa cuja voz alcançava meus ouvidos como música, fez meu corpo balançar de um lado para o outro numa tentativa falha de me fazer abrir os olhos.

Eu estava no escuro, não tinha medo, pois já havia estado lá outras vezes, mas aquela voz preocupada e desconhecida me fez querer despertar, e pela primeira vez, eu não consegui fazê-lo. O desespero tomou meu corpo e minha respiração, ao invés de ser, como de costume, quase nula, estava exasperada. Meu coração batia ligeiramente e meu corpo tremia. Será essa a minha morte? Mas, não são apenas os velhinhos que morrem? Pensava, enquanto sentia mãos pequenas e melecadas por algum doce não identificado acariciar meu rosto.

De repente, um feixe de luz adentrou meus pensamentos obscuros, deixando-os claros e vivos novamente, logo notei que era o sol que entrava por uma brecha dos meus olhos meio abertos, eu só conseguia avistar um vulto entre mim e a luz do sol.

Era uma menina, uma menina de verdade, e estava segurando em meu rosto. Será que não era um anjo? Certamente dava pra ser confundido já que sua beleza era tão grande. Seus cabelos eram ainda maiores que os meus e completamente lisos, seus olhos, escondido por trás dos óculos não deixavam de ser bonitos. E sua mão era delicada, apesar de sujinha, mas naquele momento não era nenhum incômodo, já que estava me ajudando. Quem era aquela menina? O que ela estava pensando? Um grande suspiro saiu de meus lábios e me ergui com rapidez, empurrando suas mãos para longe do meu corpo.

- Quem é você? – Gritei, ainda acalmando a minha respiração.

- Eu sou Kate, você estava aqui caída... Achei que um bicho tinha picado você. Ta vermelha e soando muito. Você se machucou? – A menina havia se encolhido devido ao meu grito, mas seus olhos me demonstravam preocupação e sinceridade. Engoli seco, arrependida.

- Obrigada, Kate. Eu sou Emily, não me machuquei... Não sei, estava rodando e de repente não conseguia mais rodar. Eu to enjoada. – Falei como nunca havia feito antes, era natural, sem medo. Eu estava mais calma.

- Minha mamãe esta grávida e tem enjôos, será que você também está? – Sugeriu ela, pegando na minha mão para ajudar-me a levantar.

- Acho que não, não vi cegonhas por aqui, Kate. – Sorri torto, eu sabia que não era bem assim a história dos bebês, mas também não sabia a correta.

- Cegonhas? Minha mãe disse que foi o médico que colocou o Matt lá na barriga dela, você tem que ver como ele chuta. Você ta aqui sozinha? Sem sua mãe? E seus amigos, onde eles estão? – Mexia em seu cabelo enquanto falava, parecia minha irmã quando estava pra arrumar namorado novo. Era engraçado vindo de uma menina do meu tamanho.

- Minha mãe está no trabalho, e a minha babá Mary ta sentada no banquinho por aí... - engoli seco quando ela fez referência à palavra amigos - Não tenho amigos, Kate... - Chutei uma pedrinha, baixando os olhos enquanto falava. E acabei enfiando minhas mãos no vestido branco com detalhes vermelhos que eu vestia. Era da mesma cor do laço que enfeitava meu cabelo. - Pode me chamar de Emy, se quiser...

- Ela nunca vem com você? - perguntou, naturalmente curiosa - Poxa, mais que triste Emy. Minha mamãe deve estar me procurando, estamos brincando de pique-esconde. Mas você pode ser minha amiga se quiser, assim podemos brincar nós três. O que você acha? – disse, sempre com um sorriso lindo estampado em seu rosto. Era de dar inveja.

- Nhuw, e-eu não sei. Não s-sou u-uma boa amiga. – gaguejei enquanto falava, era verdade, mesmo que fosse duro pra mim.

- Como não, sua boba? Todo mundo sabe ser amigo, deixa eu te ensinar. – virou-se de repente em minha direção, e pegou minha mão que estava dentro do bolso, entrelaçando nossos dedos.

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